Deep Techs em Goiás: da ciência ao mercado

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Participei na semana passada, em Goiânia, do Fórum Brasileiro de Deep Techs, iniciativa da Wylinka que percorre diferentes regiões do país para discutir como transformar ciência e tecnologia em negócios. O evento reuniu pesquisadores, empreendedores, investidores, representantes do poder público e integrantes do ecossistema de inovação, e a discussão foi além das próprias deep techs.

Em um momento em que Goiás ganha relevância como destino de investimentos, consolidação empresarial e expansão de empresas, negócios cujos principais ativos são conhecimento e tecnologia são uma frente menos evidente de criação de valor. Neles está também a capacidade do Estado de transformar conhecimento em novos negócios.

O tema tem relação com o que escrevi recentemente sobre M&A no Centro-Oeste[1]. Naquele artigo, procurei mostrar que o agronegócio não é a única fonte de oportunidades de consolidação em Goiás e que setores como saúde, educação e infraestrutura digital já reúnem condições para movimentos relevantes de capital. As deep techs seguem uma dinâmica diferente: nascem de avanços científicos ou tecnológicos e precisam percorrer um caminho mais longo até transformar uma descoberta em produto, mercado e escala.

Foi esse caminho, da ciência ao mercado, que esteve no centro do Fórum.

Ciência que empreende

Na abertura dos debates, Anderson Soares, professor da UFG e uma das principais referências em inteligência artificial e inovação tecnológica em Goiás, à frente do CEIA/UFG, fez uma distinção que vale registrar: é preciso construir o estado da arte, e não simplesmente empurrá-lo.

A ideia tem especial significado para as deep techs. Construir o estado da arte exige pesquisa de fronteira, e é justamente essa profundidade tecnológica que caracteriza uma deep tech. Para uma empresa de tecnologia tradicional, a vantagem competitiva pode estar na velocidade de execução, na capacidade comercial ou na escala. Em uma deep tech, a própria tecnologia costuma ser a principal barreira de entrada e, por isso, precisa estar suficientemente à frente e protegida para gerar uma vantagem econômica defensável.

Essa é uma das grandes dificuldades de converter a reconhecida capacidade científica brasileira em empresas competitivas. Não basta produzir conhecimento ou desenvolver uma tecnologia sofisticada. A pesquisa aprofundada exige tempo para maturar antes de se converter em produto, clientes e mercado. É justamente essa profundidade que constrói a barreira de entrada e torna a vantagem defensável. O desafio, portanto, não é correr, mas sustentar um ciclo longo e caro de desenvolvimento até que a aplicação econômica se materialize.

O chamado “vale da morte”

Essa transição apareceu de forma concreta nos relatos dos empreendedores. Iara Maciel, fundadora da Nanoterra, falou sobre o desafio de sair de uma base inicial de clientes e chegar ao ponto em que a tecnologia gera impacto em escala. O problema, nesse estágio, não é só desenvolver a tecnologia, é encontrar funding que reconheça as características desse momento e esteja disposto a financiar a passagem para o próximo nível.

Gabriel Urzeda, fundador da Bússola Fiscal, trouxe uma experiência diferente. No caso da empresa, o mais difícil não foi desenvolver a tecnologia, mas sim conquistar o primeiro cliente. A Bússola Fiscal atua em inteligência artificial, um ambiente em que a oferta de soluções é enorme e cresce a cada dia. Nesse cenário, a dificuldade é se diferenciar e convencer alguém a apostar em uma empresa nova. Assim, a validação comercial, mais do que a tecnológica, foi o que demonstrou que havia demanda concreta para a solução.

Na biotecnologia, o timing pode pesar ainda mais. Um grande contrato com uma empresa estabelecida pode ser a diferença entre uma tecnologia permanecer em estágio experimental ou obter os recursos e a validação necessários para avançar. São situações distintas, mas que ajudam a explicar o chamado “vale da morte” das deep techs, consistente no intervalo entre provar que a tecnologia funciona e construir uma empresa capaz de crescer.

Uma deep tech pode fracassar não porque a tecnologia não funciona, mas porque não encontra, no momento adequado, o capital, o cliente ou o parceiro estratégico necessário para atravessar essa fase. O desafio, por tanto, não é apenas tecnológico, mas também financeiro, comercial e, em muitos casos, institucional.

Remover barreiras para inovar

O segundo bloco do Fórum deslocou a discussão para outro ponto, já que algumas barreiras à inovação estão no ambiente institucional em que elas precisam operar.

Um exemplo é a necessidade de formar servidores públicos para “fazer compras de inovação”. A questão pode parecer operacional, mas é relevante para empresas de base tecnológica. Em determinados mercados, em que o poder público pode ser o primeiro cliente ou um cliente relevante, não basta existir uma solução inovadora. É preciso que o Estado consiga identificar sua necessidade, avaliar a solução e usar adequadamente os instrumentos disponíveis para contratá-la.

A discussão também passou pela aproximação entre poder público, setor produtivo e sociedade civil, desmistificando a inovação e transformando o discurso em ações concretas. O papel das instituições que conectam esses atores parece tão importante quanto o desenvolvimento da própria tecnologia.

O “apagão da caneta”

No último painel, Karoline Fernandes, gerente de Inovação do Hub Goiás, trouxe o chamado “apagão da caneta”: o receio que leva o gestor público a não decidir, mesmo quando existem instrumentos legais para determinada medida, por medo das consequências de uma escolha que foge do padrão.

Esse é um problema especialmente relevante em inovação, porque inovar pressupõe, muitas vezes, fazer algo que ainda não foi feito daquela maneira. Não basta criar instrumentos jurídicos que permitam determinada solução. É preciso dar segurança e respaldo para que o gestor use aquilo que a legislação já autoriza.

Dar tranquilidade ao gestor para adotar medidas já previstas na lei pode ser tão importante quanto criar novos mecanismos de incentivo. A inovação depende de um ambiente institucional que não transforme toda decisão diferente em risco individual para quem a toma.

É uma discussão que mostra como inovação, direito e governança estão mais próximos do que normalmente se imagina. O problema não é necessariamente a ausência de regras. Em alguns casos, é a dificuldade de usar, com segurança, as que já existem.

Da ciência ao mercado (e, eventualmente, ao M&A)

Em tudo isso vejo a conexão com o tema que acompanho mais de perto. Quando uma tecnologia atravessa o “vale da morte”, encontra mercado e começa a escalar, ela deixa de ser apenas uma iniciativa de pesquisa e passa a integrar uma cadeia empresarial. A partir daí surgem outras possibilidades: investimento privado, corporate venture, licenciamento, joint ventures, parcerias estratégicas e, em algum momento, M&A.

Uma empresa estabelecida pode preferir adquirir uma tecnologia a desenvolvê-la internamente durante anos. Um investidor estratégico pode enxergar valor em uma participação minoritária. Uma deep tech pode precisar de um parceiro industrial para ganhar escala. Uma universidade pode precisar estruturar a transferência de uma tecnologia para uma empresa. Em todos esses casos, o desafio é transformar conhecimento em ativo empresarial.

Na minha visão, foi essa conexão que tornou o Fórum especialmente interessante. No artigo anterior, escrevi sobre setores em que o Centro-Oeste já reúne condições para movimentos de consolidação. A discussão sobre deep techs acrescenta outra dimensão. A pergunta para os próximos anos não é apenas quais empresas serão consolidadas no Centro-Oeste, mas também quais novas empresas poderão ser construídas aqui a partir da ciência, da tecnologia e do capital.

Se Goiás conseguir aproximar esses três elementos (pesquisadores que empreendem, empresas que contratam inovação e investidores que financiam a passagem da tecnologia para o mercado), teremos dado um passo relevante. Isso exige a coragem para inovar (de que falou Iara, da Nanoterra), disposição para fazer diferente e criar referências locais, em vez de replicar modelos de outros centros. Não apenas para criar mais startups, mas para criar novos ativos estratégicos, novas empresas e, potencialmente, uma nova geração de negócios originados no Centro-Oeste.


[1] Não só do Agronegócio vive o M&A no Centro-Oeste – CDC Advogados.


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